D. Ivone Lara é a grande homenageada da Ordem do Mérito Cultural 2016

Ministério da Cultura

04.11.2016

Não se sabe ao certo quando começaram a chamar a cantora e compositora Ivone Lara de "dona". De qualquer forma, a reverência é sinal de merecido respeito por uma das grandes damas do samba. Sua importância transcende o gênero musical, uma vez que ela foi a primeira mulher a assinar sambas – em especial, sambas-enredos.

"Dona Ivone Lara foi pioneiríssima! Ela mesma já contou como era quando defendia seus sambas. Subia no banquinho e cantava, mas o sogro, que era policial [Alfredo Costa, presidente da escola de samba Prazer da Serrinha], ficava na beira do palco, armado, com cara de mau, fazendo a segurança dela... Isso no final dos anos 40. Claro que depois dela existiram outras cantoras, mas compositora, é outra história. Ela foi a primeira figura na história do samba que se notabilizou como cantora e compositora", explica o diretor musical Luis Filipe de Lima.

Dona Ivone Lara é a grande homenageada na cerimônia da Ordem do Mérito Cultural 2016, que será realizada nesta segunda-feira (7), às 18h, no Palácio do Planalto, em Brasília. Deferência mais do que justa no ano em que se comemora o centenário do samba.

"Fico feliz e agradecida pelo reconhecimento à minha pessoa e por tudo que já fiz pelo samba", diz a artista. Atualmente com 95 anos, Dona Ivone Lara nasceu no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Seu pai era violonista de sete cordas e a mãe cantava em ranchos carnavalescos tradicionais.

"Acho que tudo que eu faço é devido ao ambiente em que fui criada. Apesar de ter ido para um colégio interno, para mim continuou. Nesse colégio, conheci Dona Lucília Villa-Lobos, esposa do Maestro Villa-Lobos, e Zaíra Oliveira, primeira esposa de Donga. Elas foram minhas professoras de música e me puseram no Orfeão Artístico [Orfeão dos Apinacás, da Rádio Tupi, cujo regente era o próprio Villa-Lobos] e queriam até educar minha voz. Graças a Deus, não houve possibilidade, senão, como eu ia cantar samba?", declarou, entre risadas, a artista em seu depoimento para posteridade no Museu da Imagem e do Som (MIS).

Em 1945, Dona Ivone mudou-se para Madureira, Zona Norte do Rio, e passou a frequentar a Escola de Samba Prazer da Serrinha. Nesse período, começou a compor sambas e partidos-altos, que eram mostrados para compositores por seu primo Fuleiro como se fossem dele – na ocasião, não era comum a presença feminina no meio musical. De acordo com a pesquisadora Rachel Valença, a artista só saiu na ala dos compositores da escola de samba no início dos anos 60, o que foi considerado um feito extraordinário.

"Em 1965, ela compôs, com Silas de Oliveira e Bacalhau, o clássico Os cincos bailes da corte. Ela é uma compositora esplêndida, uma mulher linda, de personalidade muito carismática. Tudo isso foi uma benção para a Império Serrano. O sogro de Dona Ivone, presidente do Prazer da Serrinha, era um déspota, ninguém podia fazer nada, aí um grupo saiu para fundar o Império Serrano. No estatuto da escola, consta, inclusive, que tudo deve ser decidido coletivamente. Dona Ivone Lara é uma cantora de sucesso que deu visibilidade ao Império Serrano, inclusive desfilando na ala das baianas", explica a pesquisadora, que está terminando a segunda edição do livro Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba, a ser lançado em 2017, quando a escola comemora 70 anos de existência.

A paixão pela escola bate forte no coração de Dona Ivone, que declara seu amor pela música e pelo carnaval: "Apesar de não ter mais idade para desfilar, meu coração ainda é imperiano. O samba pra mim é tudo, até hoje o tenho como parte de mim", ressalta a artista, que foi tema do enredo da Império Serrano no carnaval de 2012.

Dona Ivone lançou mais de 10 discos e tem canções gravadas por grandes nomes da MPB, como Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Beth Carvalho, Jorge Aragão e Zeca Pagodinho, entre outros. No ano do centenário do samba, ela comenta sobre a evolução do gênero. "Vejo toda esta evolução como uma coisa boa, mas pode melhorar ainda mais e sei que irá, porque a nova geração que faz samba de verdade está fazendo bonito", completa a diva.

Alessandra de Paula
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura