Dona Ivone Lara, a mulher que quebrou estigmas dentro do samba

Catraca Livre

23.02.2018

É impossível falar de protagonismo feminino dentro do samba e não pensar em Dona Ivone Lara. Autora de uma obra musical marcada pela luta e resistência, Yvonne Lara da Costa ou apenas Dona Ivone, possui grande valia dentro da seara musical brasileira e sua influência é aclamada por gerações de grandes sambistas.

Conhecida como a Dama do Samba, emplacou os sucessos "Sorriso Negro", "Acreditar" e "Sonho Meu", conviveu com figuras como Mestre Aniceto, Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira, e ainda quebrou muitos estigmas ao tornar-se a primeira mulher a integrar a ala dos compositores de uma escola de samba, em 1965.

Às vésperas de completar 97 anos de idade, Dona Ivone, no papel de sambista, fez sua parte por ter tido a coragem de desafiar os padrões esperados para as mulheres da época, tornando-se uma das principais referências femininas do gênero.

Por essas e por outras que Dona Ivone Lara merece todo o nosso respeito e nossa humilde homenagem.

Infância

Nascida em Botafogo no dia 13 de abril de 1921, Ivonne Lara da Costa demonstrava um talento excepcional desde a infância, a facilidade na composição. O gosto pelo samba é um reflexo do ambiente familiar e musical que a envolveu quando criança: filha de mãe cantora, pai violonista e com um tio cavaquinhista - era na casa dele onde assistia às rodas de samba e choro.

Aos 12 anos, ela escreve sua primeira canção, o samba de partido-alto "Tié, Tiê". A inspiração veio a partir de um presente dado pelos rimos e futuros parceiros, Hélio e Fuleiro, um pássaro "Tiê-sangue". Durante a adolescência, teve como professores de música erudita Zaíra de Oliveira, esposa do compositor Donga, e Lucília Villa-Lobos, casada com o maestro Heitor Villa-Lobos. Até então, música era apenas um prazer.

Início de carreira

Aos 17 anos, Ivonne começa a estudar na Escola de Enfermagem Alfredo Pinto e passa a trabalhar como plantonista de emergência. Embora tenha dedicado sua vida adulta à área da saúde, reservava as horas vagas para participar das típicas rodas de choro organizadas na casa do tio, Dionísio Bento da Silva, que tocava violão de sete cordas e fazia parte de grupo de chorões que reunia nomes como Pixinguinha, Donga e Jacob do Bandolim.

Aos 25, é contratada pelo Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro, onde permanece por 37 anos até se aposentar. Especializada em terapia ocupacional, Ivonne trabalhou no Serviço Nacional de Doenças Mentais com a doutora Nise da Silveira, médica que revolucionou o tratamento psiquiátrico no Brasil.

Ainda aos 25, casa-se com Oscar Costa, filho do fundador da escola de samba Prazer da Serrinha. Sempre priorizando o trabalho de enfermeira, mas com um pé na música, programava suas férias em fevereiro para participar dos desfiles de Carnaval.

Império Serrano

Com o fim da escola Prazer da Serrinha, começa a frequentar a escola de samba Império Serrano. Compõe alguns sambas e partidos-altos para a agremiação - que eram mostrados aos outros sambistas pelo primo Fuleiro, como se fossem dele - no entanto, o preconceito não abria espaço para mulheres compositoras.

Apesar das desavenças, Dona Ivone foi a primeira mulher a integrar a ala dos compositores de uma escola de samba. Em 1965, a mais nova integrante da Ala dos Compositores do Império Serrano compôs, com Silas de Oliveira e Bacalhau, o clássico samba-enredo "Os Cinco Bailes Tradicionais da História do Rio".

O envolvimento cada vez maior com a agremiação rendeu-lhe, entre outras alegrias, a convivência com Mestre Aniceto do Império, Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira, que mais tarde seriam seus parceiros em algumas canções.

Senhora da canção

Somente aos 56 anos de idade, Ivone passa a dedicar-se exclusivamente à música, lançando em 1978 seu primeiro disco, "Samba Minha Verdade, Samba Minha Raiz", gravado pela gravadora Copacabana e produzido por Sargenteli e Adelson Alves.

Mesmo tendo assumido a carreira musical tardiamente, nas décadas seguintes consagra-se como grande compositora com músicas gravadas por Clara Nunes, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Beth Carvalho e Marisa Monte.

Recentemente, a rainha maior do samba foi homenageada pela Ocupação Dona Ivone Lara, que contou com a curadoria da equipe do Itaú Cultural, do músico Tiganá Santana e do jornalista Lucas Nobile; pelo projeto Sambabook e através da publicação do livro "Dona Ivone Lara - A Primeira Dama do Samba", de autoria de Nobile.