Ivone Lara revolucionou sem alarde e deixou esperança por cotidiano mais amoroso

Lucas Nobile, Folha de S. Paulo

18.04.2018

A exemplo de outros luminares como Cartola, Nelson Cavaquinho e Clementina de Jesus, Yvonne da Silva Lara ganhou reconhecimento de forma tardia. No caso dela, que lançou seu primeiro disco aos 56 anos, há duas justificativas para isso.

Primeiro, a dedicação espartana à sua profissão de formação. Graduada em enfermagem e especializada em assistência social, Ivone Lara tornou-se braço direito da revolucionária Nise da Silveira, cuidando por 37 anos de pacientes com distúrbios mentais. Não à toa, essa sensibilidade e esse humanismo se revelariam no fazer artístico de Dona Ivone.

O segundo fator impeditivo para que ela pudesse se dedicar exclusivamente à música era o machismo — fosse pelo ciúme do marido, fosse pelo simples fato de que não havia a mínima abertura para uma mulher mostrar suas músicas nos terreiros das agremiações de samba. De maneira inteligente e discreta (ainda no Prazer da Serrinha; depois, no Império Serrano), Ivone começou a apresentar suas composições como se fossem de seus primos, Mestre Fuleiro e Tio Hélio.

(Nascida em 1922 Ivone teve a idade dela aumentada em um ano pela mãe para ela poder ser aceita no colégio. Por isso há divergências acerca da idade que tinha quando morreu. A rigor, ela tinha 96 anos.)

De maneira pioneira, seu nome começou a despontar num ambiente completamente masculinizado. Em 1965, com “Os Cinco Bailes da História do Rio”, em parceria com Silas de Oliveira e Antonio Bacalhau, uma revolução: ela tornou-se a primeira mulher a entrar para a ala de compositores e a ganhar o concurso que escolhia com qual samba-enredo a escola iria desfilar na avenida.

Isso diga-se em tempo, em uma agremiação do chamado Grupo Especial. Antes de Dona Ivone, como apontam os referenciais pesquisadores Luiz Antonio Simas e Alberto Mussa, a primazia coube a Carmelita Brasil, ainda nos anos 1950, pela Unidos da Ponte.

Em um país (ainda hoje) líder em mortes de mulheres e de negras, Ivone revolucionou sem alarde, com elegância, pela arte. Serviu de guia e farol para nomes como Leci Brandão, Gisa Nogueira, Beth Carvalho, Alcione, Jovelina Pérola Negra, Áurea Martins, Teresa Cristina, Nilze Carvalho e tantas outras.

Ivone nunca foi uma campeã de vendas, mas suas composições se esparramaram (e ainda ecoam) por todo o Brasil. Para muito além do samba, foi abraçada pela chamada MPB e teve suas obras gravadas por Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Marisa Monte, Elza Soares, Elizeth Cardoso, Nara Leão e Luiz Melodia.

No meio do samba suas criações individuais —como o clássico “Alguém me Avisou”— ou em parcerias com gigantes como Delcio Carvalho, Jorge Aragão, Nei Lopes, Hermínio Bello de Carvalho, Nelson Sargento, Arlindo Cruz e Caetano Veloso ganharam as vozes de Paulinho da Viola, Roberto Ribeiro, Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, Cristina Buarque e Clementina.

De Hermínio, ela ganhou o preciso e precioso título de “Primeira Dama do Samba”. Os porquês são cristalinos. Dona Ivone foi a primeira a cantar do jeito que cantava (abrindo vozes), a compor da maneira que compunha (com influências do jongo, do choro, dos sambas de terreiro e de enredo, do canto orfeônico), a tocar um instrumento (o cavaquinho), a dançar aquele miudinho tão singular e a confeccionar os figurinos com que se apresentava.

Seus famosos “lara raiás” e suas melodias, que combinam lirismo, sofisticação, sinuosidade e forte apelo popular, têm uma assinatura inconfundível. O que dizer de “Sonho Meu”, “Acreditar”, “Tiê”, “Mas Quem Disse Que Eu Te Esqueço”, “Tendência”, “Enredo do meu Samba”, “Alvorecer” e “Nasci pra Sonhar e Cantar”?

Em tempos nebulosos, a passagem dessa “entidade” —uma das maiores compositoras do país em todos os tempos—, aos 96 anos, deixa um recado importante. Enquanto houver Brasil, enquanto houver a lembrança de um Brasil mais musical, haverá Dona Ivone e a esperança de um cotidiano mais amoroso, marcado por mais igualdade de vozes, mais generosidade, mais afeto.