Dona Ivone Lara, uma ‘bordadeira das melodias’

ISTOÉ

05.05.2019

Fabiana Cozza diz que Dona Ivone Lara era uma bordadeira das melodias. Seu disco mostra bem isso, Canto da Noite na Boca do Vento. O samba, sobretudo o que vem depois dos anos 1980, pós-Cacique de Ramos, com a valorização da percussão em detrimento das cordas e muitas vezes do andamento, tem a tendência de “esconder” as grandes melodias e as harmonias por trás da euforia que lhe é peculiar. Ouvir Fabi Cozza levando Ivone Lara para outro lugar, com mais leveza do que peso, mais melodia do que percussão, proporciona então a experiência de se chegar ao outro lado da sambista.

A assinatura de Dona Ivone traz o lacinho na melodia e uma percepção absurda que a fazia ter certeza do que as pessoas gostariam de cantar. Autora com mais de 500 sambas nas costas, tem gravados com maior sucesso Alguém me Avisou; Acreditar; Tendência; Mas Quem Disse Que Eu Te Esqueço; Samba, Minha Raiz; Sorriso de Criança; Sorriso Negro; Sonho Meu e Minha Verdade, entre outros. Do povo que a gravou, aparece de Beth Carvalho a Clara Nunes, passando por Roberto Ribeiro, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paula Toller, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Mariene de Castro, Roberta Sá e Marisa Monte.

Ivone Lara foi batizada com Y, Yvonne da Silva Lara. Seu nascimento se deu em 13 de abril de 1921 na Rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, no Rio. A mãe era a costureira Emerentina, que já cantava sambas para blocos carnavalescos, e o pai, José Lara, tocava violão de sete e também fazia parte de blocos. Uma festa que durou pouco. Aos 12 anos, Ivone não tinha mais nem pai nem mãe, ambos mortos, algo que pode ter potencializado sua sensibilidade artística, que já era grande.

Dona Ivone estudou enfermagem e se tornou especialista em terapia ocupacional. Cuidar do ser humano era uma vocação desde sempre, fosse da alma, fosse do corpo. Seu trabalhou a aproximou da doutora Nise da Silveira, a psiquiatra brasileira que se dedicou a encontrar formas menos agressivas de tratar enfermos mentais nas décadas de 40 e 50. Em 1977, ela seguiu finalmente para o samba e caiu mais uma vez em boas mãos. Sua primeira professora de canto foi ninguém menos do que Lucília Villa-Lobos, mulher do maestro Heitor Villa-Lobos. Um certo dia, o próprio Villa a ouviu cantar em sua casa e a elogiou.

Uma sequência de discos começa a criar o mito nos anos 1970. Quem Samba Fica? é de 1972; Samba Minha Verdade, Minha Raiz, de 1974; Sorriso de Criança, de 1979; e Sorriso Negro, de 1980. Filha do Império Serrano, escola na qual desfilava na ala das baianas, Dona Ivone deixou uma das obras mais abrangentes da música brasileira.