Uma noite para Dona Ivone Lara

Milton Cunha, O Dia

17.08.2010

Estávamos defronte de um painel branco, enorme, nós, a platéia do Premio da Música Brasileira, a maior concentração de estrelas da clave de sol verde-amarela de que se tem notícia, liderados pela show de bola Déborah Bloch. Aí o painel sobe, e sentadinha, no centro do majestoso palco, está Ivone Lara, levemente despencada num dos braços do trono. A entidade está ali, o maestro Rildo Hora vai até perto do ouvido dela e a avisa, carinhoso, que vai começar. Microfone na boca, a voz única de carregar tanto lastro anuncia: "um abraço negro, um sorriso negro, traz felicidade". Na escuridão cada ouvinte se segura como pode, mas muitos vamos às lágrimas, eu incluído. Fazer o quê quando se está no olho do furação? A nega veia tá chamando os ancestrais, e é só ver que o navio negreiro está todo ali. Quanta emoção, e vida longa para José Maurício Machline, que brinda-nos anualmente com superação e tenacidade. Noite linda, merecida escolha da homenageada, quando esta primeira não-cueca, portanto primeira calcinha a ganhar um concurso de samba enredo em quadra (e meu bem, quadra do Império Serrano, dobre a língua!) de escola de Samba era rainha até no palco dos brancos. Uma calcinha rendada, com babados, fru-frus e bordados, pois esta mulher brincava de bordar e enfeitar seu figurino de baiana que ia para a avenida desfilar. Era a mais bonita, das cabrochas desta ala inesquecível. E de tão bonita influenciou todas as outras que passaram a emperequetar suas vestes. Mudança de paradigma, influência boa de se sentir linda. Como se tudo isto não bastasse, para encerrar a sequência de lindas soluções cenográficas de Gringo Cardia, bam-bam-bam na arte de emoldurar, descem faixas coloridas do urdimento, colorindo a cena que tinha ao fundo a foto em close da Ivone jovem e linda, tipo Tia Nastácia do Sítio do Pica-Pau Amarelo aos 18 anos de idade, turbante, balangandãs, sorriso e olhos vivazes. Mais a frente, a original que envelheceu linda, penteada, maquiada, vestida com capricho. Ivone nova em foto, ao fundo. Ivone mais velha à frente, ao vivo e a cores, e a platéia, muda de tanto impacto. Todas as estrelas derramavam-se em elogios, ao microfone, mas Zélia foi certeira, mirando sem alvo e acertando o x da questão: o mundo é festa, pelo simples fato de Dona Ivone existir. Bingo, La Duncan! Mas antes de ser dona, a Ivone nos lembra que "nego sem emprego, fica sem sossego: é cor de respeito, é luto, é silêncio, é.... a solução...!".

Após me jogar aos pés de Ivone chiquérrima, passo com vocês à festa: minha Nossa Senhora, quanta gente doida, mal vestida, engraçados na tarefa de fazer cara de "to nem aí para a roupa sugerida no convite" ou ainda "nem ligo para Municipal e babaquice burguesa de passeio completo". É ótimo prá rir, porque carioca é imbatível na arte de aprontar. Em compensação tem gente que acerta geral, e quatro mandaram todo mundo prá pqp: recebendo na entrada, uma Liege Monteiro prateada, embalada a vácuo pelo Carlos Tufvesson: um es-cân-da-lo! Tapete vermelho e mil flashes para a magérrima, que quanto mais se engueirava no balcão de seu trabalho (amores, ela estava deste jeito tra-ba-lhan-do, quer mais?) mais a branquíssima ficava linda. Não agüentando fui até perto dela, pelas costas, para contar o número de pregas milimetricamente costuradas. Parei na 137 e fui olhar a calça de losangos de Caetano Veloso: a glória! Lindo de morrer, ousado no melhor sentido de elegância, imbatível. Passa Sandra de Sá numa ombreira de Batmam vermelha, óculos, dreads longuíssimos e loiros, enfim, Sandra por ela mesma. Ma-ra-vi-lho-sa! Aliás, rolou um clima entre Sandra e Déborah que fez o Municipal gargalhar, uma sacaneando a outra, defronte do púlpito: "Tá bem, você!", elogiou Sá. "Brigada, você também ta muito bonita, vai fazer o que depois daqui!", devolveu Bloch. "Com você, to dentro de qualquer coisa", esquentou Sandrão. Antes que baixasse uma Madonna e Britney Spears e seus beijos calientes, eles deixaram tudo prá lá, ou, na minha fantasia, para longe de nossos olhos. Que delícia!
Mas nada se compara a Alcione: meu amor, ela causou! O que é a marrom, vestida de 11 metros de seda tingida com anelina fúcsia (importada, porque a nacional não dá aquela pigmentação), plissada em roda volta ao mundo, rebordada nos seios em cristal preto e mangas segunda pele negra? Uma comoção, que jamais termina no visual, porque a ousadia e feeling da tocadora de piston é seu melhor, e sai de baixo: ninguém podia falar, só Déborah Bloch. Todos, até a deusa Maria Bethânia aceitou as regras do protocolo. Alcione, primeira e única, avança e apanha o microfone: "Déborah, eu quero falar senão eu morro. Gente, eu fiz este vestido para homenagear Ivone Lara. Não entrei com vocês pela porta da frente, não dei minha pinta, mas agora eu quero desfilar, e me dêem licença que lá vou eu!". Que Gisele Bundchen, que nada. Nossa melhor top-model é Marron, ovacionada rodopiando sobre a passarela em cima do fosso. Quem veste uma mulher desta não precisa de divulgação. Mil holofotes para ela, que, um dia, como Ivone, fará o Municipal a aplaudir velhinha. Nem que seja em espírito, eu volto para babar pelo vestido que ela vai mandar fazer para ocasião tão especial.