Nascida para sonhar, sambar e nos encantar

Antônio Carlos Miguel, O Globo

13.01.2010

RIO - "Canto de rainha", lançado em CD e DVD pela Universal (que fabrica e comercializa a produção da RWR, empresa de Roberto de Oliveira), é apresentado como uma celebração dos 62 anos de carreira de Dona Ivone Lara. Ou seja, como efeméride é um pouco forçado, mas a falta de data redonda em nada desmerece o projeto, registro de um emocionante show no Canecão, na noite de 11 de agosto de 2009. E a homenageada e a sua obra também garantem o interesse para o desgastado formato "ao vivo e convida".

Aos 87 anos - Yvonne Lara da Costa nasceu no Rio, em 13 de abril de 1922 -, ela merece essa homenagem e muito mais, autora que é de alguns dos sambas mais belos da História do gênero. Muitos estão no repertório do tributo - o DVD tem 20 faixas, o CD, 14 -, interpretados por Dona Ivone, com voz frágil, mas afinada e musical, em boa parte deles reforçada por parceiros e discípulos. É um elenco de peso - Caetano Veloso, Gilberto Gil, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Délcio Carvalho, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Bruno Castro e Velha Guarda do Império Serrano - e ótimo grupo de base, com direção musical de Paulão 7 Cordas (violão e arranjos) e, entre outros, Mauro Diniz (cavaquinho), Alexandre Caldi (sopros), Kiko Horta (piano e acordeom), Pretinho da Serrinha e Marcos Esguleba (percussão), Clarissa Grova, Elisa Addor e Mariana Bernardes (vocais).

Responsável pela direção geral e pelo roteiro, Túlio Feliciano dividiu o espetáculo em blocos temáticos. Sentada numa poltrona, com um painel florido ao fundo e o palco do Canecão coberto de folhas secas, Dona Ivone e grupo abrem a noite com "Tiê" e "Alvorecer". Em seguida, é lembrado o elo com a Bahia - referência em muito de sua obra e também a terra de duas intérpretes que a levaram além do público do samba, Maria Bethânia e Gal Costa. Caetano pode não ter encontrado o tom em "Força da imaginação" (mesmo sendo o parceiro de Dona Ivone neste samba), mas acerta em "Alguém me avisou", esta também com a participação de Gil, que fica no palco para o bom dueto seguinte, em "Samba de roda pra Salvador".

Após fazer mais um número sozinha, "Mas quem disse que eu te esqueço?", vem o bloco dos parceiros. São encontros com dois veteranos, Délcio Carvalho - coautor de quase uma dezena de sucessos de Dona Ivone, ele divide um belo mas não tão conhecido samba, "Acreditar"- e Jorge Aragão ("Enredo do meu samba"), e um novo, Bruno Castro ("Nas escritas da vida").

No bloco "os sorrisos da rainha", ela canta sozinha "Sorriso de criança" e "Sorriso negro". Depois é a vez dos "sonhos", a partir do dueto com Beth Carvalho no sucesso "Sonho meu" (Ivone Lara e Délcio Carvalho). Novamente sozinha, Dona Ivone canta outra gema da parceria com Délcio Carvalho, "Nasci pra sonhar e cantar": "O que trago dentro de mim/ Preciso revelar/ Eu solto um mundo de tristeza que a vida me dá/ Me exponho a tanta emoção".

O roteiro segue com uma homenagem à turma do Cacique de Ramos, representada por Arlindo Cruz - em "Canto de rainha", que ele escreveu com Sombrinha citando na letra diferentes sambas de Dona Ivone - e Zeca Pagodinho, em "Não chora, neném" (ainda com Arlindo no palco) e "Dizer não pro adeus".

A sequência final relembra as escolas nas quais Dona Ivone se formou e ajudou a criar, respectivamente, Prazer da Serrinha e Império Serrano, por meio dos sambas "Resignação", "Candeeiro da vovó"/"Pagode do Pai Joaquim" e, fechando a noite com a Velha Guarda do Império Serrano, "Serra dos meus sonhos dourados"/"Os cinco bailes da História do Rio".