Intuição e sensibilidade

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

12.01.2010

Fiel à linhagem que ergueu os pilares do canto de samba feminino, tão em voga na atualidade, Dona Ivone Lara descende da fina flor de ícones como Tia Ciata e Clementina de Jesus. Sua voz e dotes, como compositora afiada, a guiam ao panteão dos maiores personagens da música popular brasileira. Aos 87 anos, e cercada por seletíssimos convidados, a elegante dama do samba imperial finalmente recebe tratamento tão refinado quanto seu talento.

Em DVD ao vivo, Dona Ivone Lara - Canto de rainha, recheado com 20 faixas, Dona Ivone deita o seu canto e improvisos para ornamentar canções do seu vasto repertório autoral. Clássicos como Acre ditar, Alvorecer, Sonho meu, Nasci pra sonhar e cantar, Sorriso de criança e Candeeiro da vovó ilustram a o rico teor de sua mais constante e frutífera parceria, ao lado do compositor Délcio Carvalho, que, no show, exibe o seu belo e grave registro, com divisões peculiares e boa extensão vocal.

Primeira mulher a assinar um samba-enredo, Os cinco bailes da história do Rio, e a ingressar a ala de compositores de uma escola de samba carioca, o Império Serrano, Dona Ivone abre os trabalhos com a sua primeira criação, Tiê, composta aos 13 anos para homenagear um passarinho que “à época era como se fosse a minha boneca”, revela nos extras. A faixa, que recebe créditos dos baluartes Hélio dos Santos e Mestre Fuleiro, simboliza a porta de entrada da artista no mundo do samba: as rodas de partido alto do Morro da Serrinha, onde os parceiros improvisavam versos ao entorno dos refrões da cantora.

Contralto, desde pequena era escolhida para fazer o contracanto nas canções apresentadas em festas de colégio. A responsabilidade lhe serviu de base para os arranjos vocais que hoje são a sua marca pessoal mais admirada.Intuitivamente, sofistica suas interpretações com elaborados e sinuosos laralaiás, que emolduram introduções que se tornaram marcantes, como a de Mas quem disse que eu te esqueço, tecida em parceria com Hermínio Bello de Carvalho. Com direção geral de Túlio Feliciano e arranjos de Paulão 7 Cordas, Dona Ivone recebe, no belíssimo cenário assinado por Luiz Henrique Pinto, presenças ilustres, como a de Caetano Veloso, em Força da imaginação e Alguém me avisou – esta também com Gilberto Gil. Jorge Aragão reverencia a artista com Enredo do meu samba, enquanto Beth Carvalho entoa Sonho meu e os bambas Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz e a Velha Guarda do Império Serrano dão ponto final luxuoso a esta rica e atemporal homenagem a uma das maiores compositoras do país.