Ivone Lara chega nobre aos 90 anos sem ilusão com a indústria do disco

Mauro Ferreira, Notas musicais

13.04.2011

Pioneira na abertura de alas para as mulheres que compõem samba, Ivone Lara completa 90 anos nesta quarta-feira, 13 de abril de 2011, sem ilusões com a indústria fonográfica - e sem ver em catálogo discos expressivos como Sorriso de Criança (1979) e Sorriso Negro (1981). Aliás, a quase totalidade dos álbuns que gravou nos anos 70 e 80 sequer chegou ao formato digital. Uma injustiça com compositora dona de melodias luminosas. Em caminhada desbravadora na história do Samba, Ivone Lara deu seus passos iniciais sob a luz dos (pre)conceitos machistas que guiavam a sociedade na época em que a compositora iniciante teve que recorrer a um primo influente nos redutos do samba e da Serrinha (Madureira, Rio de Janeiro, RJ) - Antonio dos Santos, o futuro Mestre Fuleiro (1911 - 1997) - para que suas músicas fossem ouvidas. Fuleiro mostrava os sambas de Ivone como sendo de autoria dele, com aval de Ivone, que se contentava em ver sua criação ser bem recebida pelos bambas. Orfã de mãe aos 12 anos, idade em que compôs seu primeiro partido alto, Tiê, Ivone soube traçar seus caminhos e se impor como compositora de assinatura original. Em 1947, ano emblemático na vida da artista, ela casou, se formou em assistência social (profissão que lhe garantiu o sustento até 1977, ano em que se aposentou e passou a viver também dessa aposentadoria e dos rendimentos irrregulares obtidos com seu ofício de compositora) e passou a integrar oficialmente a ala de compositores da recém-criada escola de samba Império Serrano, auxiliada pelo prestígio de ser nora de um dos fundadores da agremiação carioca, criada a partir de dissidência na seminal Prazer da Serrinha. Em 1965, ajudada pelo acaso e por inspiração que considera intuitiva, Ivone abriu mais alas no samba e se tornou a primeira mulher a assinar um samba-enredo oficial, Os Cinco Bailes da História do Rio, concluído por ela no momento em que percebeu, ao visitar os autores Silas de Oliveira e Bacalhau, que ambos - já bêbados - não conseguiam completar o tema que se transformaria em obra-prima do gênero. Em que pesem todas essas conquistas, Ivone somente se tornou conhecida em todo o Brasil a partir dos anos 70, quando seus sambas com Délcio Carvalho - o parceiro com quem tem cerca de 15 sambas inéditos à espera de gravação - passaram a ser gravados por cantores como Clara Nunes (Alvorecer), Roberto Ribeiro (Acreditar) e Maria Bethânia (Sonho Meu, em dueto com Gal Costa em gravação de 1978 que projetou a obra de Ivone fora dos redutos do samba). Conectada às melhores tradições do samba, com elos com a seminal raiz africana, a obra de Ivone Lara tem o d.n.a. da nobreza, perceptível no fino acabamento melódico e poético. Por tudo isso, é injusto que seu último belo disco de estúdio - Nas Escritas da Vida, gravado com a reunião da obra feita com Bruno Castro, seu parceiro desde 2001 - tenha sido lançado em 2010 sem a menor repercussão. É mais injusto ainda que o disco Bodas de Coral no Samba Brasileiro, finalizado em 2010 com patrocínio do projeto Natura Musical, não tenha tido distribuição comercial. Neste CD que mistura números ao vivo captados em show de 2008 com faixas feitas em estúdio, há cinco músicas inéditas da lavra de Ivone com Délcio. Enfim, Ivone Lara - vista em foto de Mauro Ferreira - chegou nobre aos 90 anos. A data é motivo de festa. Já o descaso da indústria fonográfica com a bela obra da compositora é motivo de luto.