‘Poetas imperianos’, capítulo 4: mulher mais importante do samba, Dona Ivone Lara brilha aos 92 anos

Leonardo Bruno e Gustavo Melo, Extra - Rio de Janeiro

12.02.2014

Não existe na história do samba mulher mais importante do que Dona Ivone Lara. Aos 92 anos, continua encantando o público por onde passa, desfiando seu “laraiá” e seu lindo sorriso. Homenageada no “Carnaval Histórico”, é presença confirmada na festa de terça-feira, no Imperator – oportunidade para, mais uma vez, aplaudirmos de pé a grande Dama do Samba.
A genialidade e o talento de Ivone Lara afloraram cedo. Aos 12 anos, já arriscava alguns versos. Criada na Tijuca, a menina estudou no tradicional colégio Orsina da Fonseca, onde aprendeu as primeiras notas musicais. Aluna da turma de Canto Orfeônico, participou de uma apresentação no Theatro Municipal para o consagrado maestro Heitor Villa-Lobos. Dali em diante, a música nunca mais sairia de sua vida.

Ivone se casou com Oscar, filho do presidente da Prazer da Serrinha, Alfredo Costa. Foi ali que compôs seus primeiros sambas. Mas ela não assinava as próprias obras. O motivo? Mulher não podia se envolver com samba, muito menos compor! Quem assinava era o primo, Tião Fuleiro, um dos mais respeitados diretores de harmonia do carnaval.
Dona Ivone passou a conciliar as tarefas domésticas com o trabalho como enfermeira e assistente social. Mas o samba tinha um lugar especial na agenda. A presença na quadra do Império era sagrada. E foi numa dessas idas, em 1965, que entrou para a história ao se tornar a primeira mulher a compor um samba de enredo. Ao lado de Silas de Oliveira e Bacalhau, fez o clássico “Os Cinco Bailes da História do Rio”. Nos anos 70, a sambista surgiu com força no cenário da MPB. Fez parte do show “Opinião” e teve obras gravadas por Clara Nunes, Maria Bethânia, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho e Caetano Veloso. Seu grande parceiro foi Délcio Carvalho, com quem fez clássicos como “Sonho Meu” e “Acreditar”, duas das mais lindas canções de nossa música.

A mais famosa das baianas da Cidade Alta
Consagrada como grande nome da MPB, Dona Ivone se tornou um dos nomes mais esperados na passagem do Império Serrano pela Avenida. Ainda nos anos 60, foi consagrada madrinha da Ala dos Compositores da verde e branco. Mas era como baiana que gostava de desfilar. E, por muitos anos, veio no chão, à frente da Ala da Cidade Alta (sim, a Ala das Baianas do Império tem nome e sobrenome!). Nos anos 80, passou a desfilar com luxuosas fantasias de baiana, confeccionadas pelo famosso estilista Evandro de Castro Lima. Em 1983, ano em que a escola tentava o bicampeonato com “Mãe Baiana Mãe”, Dona Ivone surgiu em dourado no abre-alas da escola, que representava a Igreja do Bonfim. Um momento marcante para quem teve a sorte de ver o desfile – e que será relembrado na festa do “Carnaval Histórico”.
Aos 90 anos, Dona Ivone Lara viveu uma das maiores emoções de uma vida dedicada ao samba. Foi homenageada no enredo de sua escola de coração, o Império Serrano, e levou a Avenida ao delírio. O lindo samba, assinado por Arlindo Cruz, Arlindo Neto e Tico do Império, lembrava grandes momentos da vida e da obra da sambista, uma história que se confunde com a do próprio Império Serrano, a escola que aprendeu a amar. E onde aprendeu que samba também é coisa de mulher.