Dona Ivone Lara e Clara Nunes serão homenageadas com musicais

Lucas Nobile, O Estado de São Paulo

27.07.2014

Desde 2011, musicais brasileiros têm apostado em um filão: levar aos palcos vida e obra de grandes nomes da música brasileira. Depois de um início marcado por figuras masculinas, como Tim Maia, Milton Nascimento, Cazuza e Chico Buarque (não especificamente sobre o artista, mas um condensado de seus musicais), as mulheres roubaram a cena de vez, com espetáculos sobre Elis Regina, Rita Lee, Cássia Eller e Carmen Miranda.

Reafirmando essa toada, mais duas figuras femininas terão suas trajetórias encenadas para o público. Com previsão de estreia para 2015, atualmente em fase de pré-produção e de captação de patrocínios, musicais vão homenagear dois nomes importantes na história do samba: Dona Ivone Lara e Clara Nunes (1943-1983).

Batizado de Ivone Lara – Dona Melodia, o espetáculo sobre Dona Ivone vai contar a trajetória da compositora, cantora e instrumentista conhecida no meio musical como “A Primeira Dama do Samba”. Com texto de Diogo Vilela e direção de Fernando Philbert, o musical apresentará diversas fases da obra da homenageada, relembrado o pioneirismo de Dona Ivone num universo extremamente masculino (e machista) do samba, principalmente quando do início de sua carreira.

Nascida no bairro de Botafogo, no Rio, em 1921, ela se mudou para Madureira na década de 1940 e começou a frequentar a escola de samba Prazer da Serrinha. Naquele ambiente dominado pelos homens, Dona Ivone fez inúmeros sambas. Para driblar o preconceito, seu primo Fuleiro apresentava as composições, muito elogiadas, como se fossem dele. Apesar da resistência machista, Dona Ivone compôs Nasci para Sofrer, com o qual a Prazer da Serrinha desfilou em 1947.

No mesmo ano, após uma dissidência, a escola deu origem à hoje conhecida Império Serrano. Quase 20 anos depois, Dona Ivone escreveu seu nome na história do samba ao se tornar a primeira mulher a ingressar na ala de compositores da Império Serrano, escola de coração de nomes lendários como Silas de Oliveira, Aniceto do Império, Mano Décio da Viola, entre outros.

“Naquela época era praticamente impossível ganhar um samba em Império Serrano, foi uma grande ousadia da parte dela, não foi nada fácil entrar para a ala dos compositores”, comenta a compositora, cantora, instrumentista e deputada estadual (PCdoB-SP) Leci Brandão. “Conheci Dona Ivone em 1974, num show numa casa chamada Pujol. Ela já cantava no Teatro Opinião, e depois me parabenizou por eu também fazer parte da ala dos compositores da Mangueira”, completa Leci.

Além de ressaltar a relevância de Dona Ivone no universo do samba-enredo, o musical vai destacar a originalidade dela, autora de composições como Acreditar, Sonho Meu, Tendência, Enredo do Meu Samba, Candeeiro da Vovó, entre outras centenas regravadas por nomes como Maria Bethânia, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Nana Caymmi, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Clementina de Jesus, Elza Soares, Elizeth Cardoso, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Marisa Monte, Nelson Sargento, Jorge Aragão e Délcio Carvalho, seu parceiro mais constante, que morreu no ano passado.

“Dediquei meu disco mais recente a ela. Foi a primeira mulher a ganhar um samba-enredo na Império Serrano, uma mulher maravilhosa e pioneira a se destacar no meio de homens compositores, isso tem uma importância grande, me inspirou muito”, comenta Beth Carvalho.

O espetáculo também contará a vida de Dona Ivone, que trabalhou como enfermeira, e terá como ponto de partida a primeira e uma das composições mais marcantes de sua carreira, Tiê, que ela fez após ganhar um pássaro tiê-sangue de seus primos.

“Vamos contar a história de uma mulher romântica, compositora, relembrada pela própria Dona Ivone em cena junto ao seu passarinho Tiê, que foi inspiração para sua primeira composição. A história da peça se passa na lembrança de Dona Ivone, que, conversando com seu passarinho, relembra o seu passado, e daí vai criando um caminho de recordações”, conta Diogo Vilela, que buscou referências na biografia Ivone Lara – A Dona da Melodia, de Kátia Santos.

Mais do que recordar a trajetória de Dona Ivone Lara, o espetáculo vai contar, pela atuação de sua personagem principal, a história do samba. “Dona Ivone é uma mulher inteligente que sempre estudou, é uma artista que traz harmonias raras em suas obras. Quando criança, participava de rodas de jongo, sua vó foi jongueira, algo de tradição na comunidade de Madureira, da Serrinha. Dona Ivone frequentou rodas de partido-alto, ela é uma artista que traz em seus sambas a história do samba-enredo, do jongo, do partido-alto, ela é esta história”, diz Fernando Philbert.

Autorizado a captar pouco mais de R$ 3 milhões em patrocínios via Lei Rouanet, o musical ainda realizará audições para escolher a atriz que dará vida a Dona Ivone nos palcos. Para o corpo de jurados serão convidados nomes como Arlindo Cruz, Rildo Hora, Mart’Nália, e Regina Casé.

“Dona Ivone Lara faz parte daquele time de mulheres do samba, poderosas, uma grande imperiana. Além de ser uma grande compositora, ela canta como ninguém, e é uma pessoa que no palco você não consegue tirar os olhos dela. Salve Dona Ivone Lara, salve o Império Serrano, salve o samba, salve a mulher brasileira”, diz Alcione.

Clara Nunes será vivida por Vanessa Gerbelli nos palcos

Mais de 30 anos depois de sua morte, Clara Nunes, outra figura feminina imprescindível na história não só do samba, mas da música popular brasileira, também voltará aos palcos por meio de um musical.

O espetáculo, com previsão de estreia para janeiro, no Rio, ainda busca patrocínios e está orçado em aproximadamente R$ 3,1 milhões. Ainda com o título provisório de Clara Nunes – O Musical, a peça terá roteiro, direção musical e geral de Francisco Nery, e a atriz Vanessa Gerbelli no papel principal.

Mineira, nascida em Caetanópolis, Clara Nunes morreu em abril de 1983, aos 39 anos, após uma malsucedida cirurgia para a retirada de varizes. Antes da fatalidade, cantou diversos gêneros musicais, teve sua figura muito ligada ao samba e a canções com influências do candomblé, além se tornar a primeira cantora brasileira a vender mais de 100 mil discos.

Ao longo de sua carreira, gravou composições de nomes como Paulo César Pinheiro (com quem foi casada), João Nogueira, Mauro Duarte, Nelson Cavaquinho, Candeia, Paulinho da Viola, Nei Lopes, Wilson Moreira, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, entre outros.

“O espetáculo terá dez músicos e dez dançarinos no palco. Não vamos contar a vida da Clara, vamos cantar a vida dela, passando pelas diversas fases de sua obra: as músicas do Nordeste, o início da carreira, a Portela, a parte mais religiosa. Tive o privilégio de ver a Clara no palco, uma cantora que está tão viva na memória dos cariocas, uma mulher que construiu o próprio teatro”, completa Francisco Nery.

“Vamos tratar da obra da Clara, não falo em tristeza, não falo em morte. Como bem definiu Paulo César Pinheiro, foi um ser de luz. Um ser desses, um mito, não morre jamais”, diz o diretor. / L.N.