Ivone Lara, única e última

Nei Lopes, O Estado de S.Paulo

07.05.2011

No último 13 de abril o mundo do samba celebrou os 90 anos da genialíssima Dona Ivone Lara. E a efeméride trouxe à baila mais uma intrigante questão. É que, desde o surgimento dessa grande dama no cenário artístico nacional, as escolas de samba nunca mais conseguiram elevar ao estrelato de nossa música popular nenhum outro artista oriundo de seu meio.

Comecemos por observar que nos anos 70-80, no Rio, muitos sambistas importantes surgiram. Mas embora alguns mantivessem ligações com escolas, a base de lançamento de quase todos foi um bloco, o Cacique de Ramos. E a visibilidade por eles alcançada não veio da "avenida", e sim de uma manifestação não carnavalesca do ambiente musical carioca: o "pagode de mesa".

Surgido como sinônimo de divertimento, patuscada, farra, o termo "pagode" ganhou, no Rio de Janeiro, a acepção de reunião de sambistas, em substituição a "roda de samba", denominação antes em voga. Realizado preferencialmente em torno de uma mesa, onde são servidas bebidas e comidinhas, esse tipo de reunião popularizou-se também como "pagode de mesa". E, daí, a partir dos encontros realizados no quintal do bloco Cacique de Ramos, o nome "pagode" passou a denominar, ao mesmo tempo, um estilo de interpretação do samba e um subgênero de canção popular.

A chegada desse novo estilo de samba ao mercado deu-se com as primeiras gravações do Grupo Fundo de Quintal e se consolidou a partir do lançamento em 1985, do LP Raça Brasileira. Nesse disco, aparecem, para o grande público, entre outros, o nome de Zeca Pagodinho. Privilegiando, também, a tradição do partido-alto, o estilo pagode colocou em destaque compositores e intérpretes como Almir Guineto, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila e, mais tarde, o jovem Dudu Nobre.

Na segunda metade da década de 1990, o subgênero de canção rotulado como "pagode" pela indústria fonográfica, com as inevitáveis deturpações, diluições, e aproximações com o pop mundializado, colocou em evidência e tornou artistas bem remunerados vários jovens sambistas das periferias de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Mas não guindou ao estrelato, pelo menos no Rio, nenhum artista ligado ao universo das escolas de samba.

Recuando no tempo, lembremos o esforço de Paulo da Portela (1901-49) no sentido da profissionalização do então chamado "samba de morro", num contexto em que o samba "do asfalto" já exercia hegemonia nos universos do rádio, do disco e dos direitos autorais, até mesmo, de certa forma, colonizando os autores das escolas. Apesar disso, e de outros fatores adversos, brilharam os hoje cultuados Cartola, Ismael Silva, Geraldo Pereira, Candeia, Monsueto, Zé Kéti, etc.

Em 1965, o legendário espetáculo Rosa de Ouro dava visibilidade aos sambistas Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento, Nescarzinho do Salgueiro e Paulinho da Viola - então recém-ingressado na Portela. Três anos depois, um dos festivais da canção então em voga possibilitava o ingresso no meio artístico profissional, como cantor e compositor, do sambista Martinho da Vila, até hoje um grande nome de nossa música popular.

Na primeira metade da década seguinte, então, surge Ivone Lara, excepcional compositora e cantora, oriunda do núcleo fundador da escola de samba Império Serrano, quase ao mesmo tempo do ingresso de Leci Brandão na Mangueira. E isto, num momento em que já tinha "morrido" para a grande indústria do disco um dos maiores cantores populares do Brasil em todos os tempos, o também sambista Jamelão (1913 - 2008).

Como já dissemos em outra oportunidade, para nós, se não se mantivesse tão fiel ao universo das escolas, Jamelão talvez fosse, no final de sua trajetória, mais admirado, endeusado e mitificado do que apenas lembrado como "puxador", qualificativo que abominava.

A saga desse grande cantor à parte, o fato é que, hoje, entre os artistas mais prestigiados de nossa música popular surgidos após a década de 70, não há nenhum - mesmo entre aqueles completamente identificados com determinadas escolas e ardorosos defensores de suas cores - cujo sucesso tenha sido propiciado por atuação no seio de uma delas. E os que vieram depois, mesmo tendo conquistado alguma ascensão social e econômica como cantores, dançarinos, coristas, etc, só são efetivamente conhecidos, além do carnaval, no próprio círculo, que compreende casas de espetáculos e até outras escolas, em inúmeras cidades brasileiras.

O porquê, então, de as escolas não serem mais "celeiros de bambas" como blasonavam os sambas antigos, é um dos pontos a refletir nestes 90 anos da rainha Ivone Lara, única e última.